Sobre O Túmulo dos Vagalumes (Isao Takahata, 1988) e a invisibilidade das pessoas vulneráveis.

Estação de Sannomiya, Kobe, setembro de 1945. Um menino está encostado numa coluna, no meio do fluxo dos passageiros, e ninguém para. Ele tem catorze anos, está sujo, imóvel, e a primeira frase do filme sai da sua boca já sem corpo, anunciando a data da própria morte. Pouco depois, um funcionário da limpeza revira seus pertences, encontra uma pequena lata enferrujada de balas de fruta, sacode, ouve um chocalhar que não reconhece e a arremessa no mato. Ao lado da lata já aberta, sobem vagalumes e, com eles, a aparição de uma menina de quatro anos. O que o faxineiro jogou fora eram as cinzas dela.
Assim começa O Túmulo dos Vagalumes, que Isao Takahata dirigiu em 1988 para o Studio Ghibli a partir do conto de Akiyuki Nosaka. E começa avisando, sem nenhuma piedade pelo espectador, que não haverá suspense. Sabemos o desfecho no primeiro minuto. O que o filme nos pede não é torcer, é acompanhar, e essa estrutura deveria soar estranhamente familiar a quem trabalha com processos. Uma história contada de trás para diante, irreversível, narrada por quem já não pode ser salvo, entregue a um terceiro que chega tarde por definição. Quem lê autos ocupa exatamente esse lugar. Recebemos vidas em versão póstuma, quando os fatos já se consumaram, e a única coisa que ainda podemos oferecer é o modo como vamos nomeá-los e qual instituto aplicar. Será?
A crítica corrente classifica a obra como o mais devastador filme antiguerra já animado, e há razões visíveis para isso. Takahata, porém, recusou o rótulo repetidas vezes. Dizia que filme nenhum impede guerra alguma, e que seu interesse estava em outro lugar, num alerta dirigido à juventude japonesa dos anos oitenta, próspera e progressivamente isolada, sobre o que acontece quando alguém se desliga da rede de obrigação mútua que o sustenta.
Nosaka, o autor do conto, o escreveu como expiação. Ele perdeu a irmã pequena para a desnutrição em 1945, naquele mesmo contexto e verão, e carregou pela vida a culpa de não ter conseguido alimentá-la. O inimigo real do filme, portanto, não é o bombardeiro americano, que aliás nunca ganha rosto, mas algo mais difuso e mais durável, que transcende o óbvio, a distância moral que se instala entre pessoas que dividem a mesma rua, a mesma comunidade, o mesmo ecossistema.
Repare que, embora haja vilões que buscamos culpabilizar, não há vilões de verdade. A tia que acolhe os irmãos órfãos não é um monstro, é a lógica do racionamento encarnada que, quando liquida os quimonos da mãe morta das crianças para convertê-los em arroz, pratica um ato que a aritmética da escassez aprova inteiramente. O médico que examina a pequena Setsuko não erra o diagnóstico, é objetivo. O faxineiro não é cruel, está limpando uma estação e se modulou àquele “novo” normal. Setsuko morre de desnutrição em agosto, Seita morre de fome em setembro, e nenhuma regra foi descumprida no caminho. Essa é a descoberta insuportável do filme, a constatação de que a catástrofe não precisa daquela maldade maniqueísta clara e caricata, basta a soma de condutas tecnicamente corretas praticadas por pessoas que não se consideram responsáveis pelo resultado final.
E há o erro de Seita, que o texto precisa encarar com o cuidado devido a uma criança. A decisão fatal é dele. Humilhado pela tia, que cobra gratidão em prestações diárias e transforma cada refeição em lembrete de dívida, o menino pega a irmã e vai viver num abrigo abandonado à beira de um açude.
Buscando informações sobre o filme, li que parte da crítica japonesa da época (década de 80) o tratou com dureza, como símbolo do orgulho que mata. Prefiro outra leitura, a de que o sistema ofereceu àquele menino exatamente duas portas, submissão humilhante ou exílio digno, e qualquer pessoa colocada diante de uma instituição que cobra seu rebaixamento como preço da proteção tenderá, mais cedo ou mais tarde, a escolher o exílio. Isso valia para um adolescente de Kobe em 1945 e vale para o jurisdicionado que desiste no balcão burocrático, para a mulher que retira a representação depois de ouvir de alguém que aquela já é a terceira vez, para o idoso que prefere não incomodar ou que não sabe bem explicar o que busca. Quando o acesso exige que a pessoa se curve, uma parcela previsível de gente simplesmente some e, terrivelmente, o sistema costuma registrar esse sumiço como desistência voluntária, quando deveria registrá-lo como diagnóstico de si mesmo.
Os vagalumes dão título ao filme e escondem seu segredo gráfico. Em japonês, a palavra hotaru (vagalume) possui ideograma próprio, mas Nosaka a grafou com dois caracteres que significam, ao pé da letra, fogo que goteja e essa escolha não foi um mero capricho do escritor, foi uma alusão semiótica à chuva de bombas incendiárias que, lançadas pelos B-29 e vistas do chão, ganham desenho visualmente idêntico aos insetos que os irmãos soltam dentro do mosquiteiro para iluminar a noite do abrigo. A mesma luz que encanta à distância carboniza de perto. Na manhã seguinte, Setsuko cava uma pequena cova para os vagalumes mortos e pergunta ao irmão por que eles morrem tão depressa. Na mesma cena, revela saber que a mãe também está numa cova, o segredo que todos tentavam lhe poupar. Uma criança de quatro anos compreendendo a morte antes que os adultos encontrassem coragem de contá-la.
Guardadas as proporções, 81 anos depois, seguimos assistindo ao fogo que goteja, literal e metaforicamente. As guerras do nosso tempo chegam ao bolso entre um vídeo e outro, cidades desabando em sequências de quinze segundos, crianças em macas ocupando a mesma tela que anúncios de eletrodomésticos, e a rolagem segue, nas TVs e nos scrolls dos gadgets e aplicativos. Susan Sontag observou que a repetição da imagem da dor alheia não amplia a compaixão, anestesia, e o excesso de visibilidade produz, por paradoxo, invisibilidade, porque ver tudo e não poder nada ensina, aos poucos, a não ver. A multidão de Sannomiya não é uma relíquia de 1945, ela atravessa a estação todos os dias, agora de fones no ouvido.
É aqui que a filosofia ajuda a dar nome ao que o filme apenas mostra. A partir de uma leitura conjunta de “Vida precária: os poderes do luto e da violência” e de “Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?”, compreendemos o que Judith Butler sustentou sobre o luto não ser distribuído igualmente, que existem vidas cuja perda comparece ao mundo como tragédia e vidas cuja perda comparece como estatística, e que essa partilha nada tem de natural, é produzida, tem endereço, idade e gênero, vidas choráveis e vidas matáveis (Giorgio Agamben). Hannah Arendt descreveu o processo pelo qual sociedades aprendem a tratar certos seres humanos como supérfluos, aqueles por quem nenhuma instituição responde, por já estarem mortos, antes mesmo da morte biológica. Para Bauman, a divisão do trabalho, a tecnologia e as estruturas hierárquicas fabricam distância moral, porque cada um cumpre a sua fração da tarefa sem enxergar o conjunto, e o resultado final não pertence a ninguém. Simone Weil dá o contraponto, quando afirma que a atenção plena dirigida a alguém que sofre é, para ela, coisa tão rara e tão difícil que “é quase um milagre”.
Setsuko tem herdeiras contemporâneas, e elas frequentam os nossos fóruns. Ela é a idosa que só aparece nos autos quando a aposentadoria já foi consumida em empréstimos consignados por quem detinha, ao mesmo tempo, o seu cartão e o seu afeto, numa violência patrimonial que repete quase literalmente o gesto da tia liquidando os quimonos da morta, a conversão silenciosa do vínculo em renda. Ela é a mulher em situação de violência que, quando o processo finalmente ganha “capa” e número, já havia tocado o sistema várias vezes, na delegacia, na unidade de saúde, no conselho tutelar, contatos que existiram, foram atendidos com correção e jamais conversaram entre si. Ela é também a criança que só ganha nome nos autos quando já não resta nada a decidir, apenas a apurar. O traço comum entre as três desmonta a nossa defesa habitual. Nenhuma delas foi ignorada. Todas foram atendidas.
O conforto do dever cumprido tem até uma lei da física a seu favor. A primeira lei de Newton, a da inércia, costuma ser emprestada como princípio basilar da jurisdição, e, lida ao pé da letra, autoriza uma certa falta de propósito, porque um corpo em repouso tende a permanecer em repouso e só sai dele se, e quando, uma força externa atuar sobre ele. Que confortável! Max Weber deu a esse conforto um nome mais preciso quando distinguiu a ética da convicção, que se satisfaz com a correção do ato praticado, da ética da responsabilidade, que responde pelas consequências previsíveis do que se faz e do que se deixa de fazer. O “eu fiz a minha parte” é a ética da convicção em estado puro, e a sua virtude secreta é que ninguém precisa carregar o resultado final, porque o resultado final não pertence a ninguém.
Nessa linha, a cena que obedece com mais fidelidade ao princípio da inércia da jurisdição não se passa em tribunal algum, mas em um consultório. Seita leva a irmã, já coberta de feridas, ao médico, que a examina com competência, conclui que se trata de desnutrição, declara que ela precisa de comida, não de remédio, e chama o paciente seguinte. Diagnóstico impecável, consequência inexistente, ou pior, opressora, porque a reação de Seita é gritar, perguntando de onde alguém tiraria comida naquela cidade, e a pergunta fica suspensa no ar do consultório como ficam suspensas tantas perguntas feitas em balcões públicos. Todos reconhecemos essa cena. Ela é o boletim de ocorrência lavrado com precisão e sem avaliação de risco, a medida protetiva deferida em prazo recorde e descumprida antes que alguém a fiscalize, o laudo que confirma o óbvio e não move nada, a decisão tecnicamente perfeita que chega certa, mas tarde.
Agosto passou e trouxe consigo os vinte anos da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, lembrando que a norma, sozinha, é aquele médico. Setembro troca a cor da fita e faz, no seu dia dez, uma pergunta mais difícil, porque a pessoa invisível deste mês pode não ter agressor algum, ninguém que a persiga, ameace ou expulse de casa. Pode ser apenas alguém que parou de aparecer.
Aqui o filme e a ciência dizem a mesma coisa com mais de noventa anos de distância. Em 1897, Émile Durkheim publicou o primeiro grande estudo sociológico sobre o suicídio e demonstrou que ele não é apenas um drama íntimo, é um fato social, e que o que protege uma pessoa não é a ausência de sofrimento, é o grau em que ela permanece integrada a um grupo que a segura. Chamou de egoísta o suicídio que nasce do afrouxamento desses laços, do indivíduo que a rede deixou de reter. Takahata, quando recusou o rótulo de filme antiguerra e falou de um jovem que se desliga da comunidade, estava descrevendo o mesmo mecanismo, e Seita o encarna sem que o filme precise de uma única palavra sobre o assunto. Ele para de pedir. Desiste. Aprende que pedir, além de lhe custar humilhação, expressa o desprezo social e, decidindo não mais incomodar, some de vista no meio de uma multidão. Suprime o ego social em favor do ego individual, que sobressai pela ausência do propósito coletivo que a sociedade lhe retirou, que ficou desacreditado. Não morre por suicídio, morre de fome, mas o caminho até a coluna da estação é o caminho que a literatura da prevenção descreve com precisão clínica, o silêncio que os outros leem como melhora.
E há um dado que transforma a cena do consultório de metáfora em estatística. Uma revisão de quarenta estudos publicada no American Journal of Psychiatry* em 2002 apurou que cerca de 45% das pessoas que morreram por suicídio haviam consultado um serviço de atenção primária no mês anterior à morte, três em cada quatro no ano anterior, e que a proporção era ainda maior entre os idosos. Foram vistas. Foram atendidas. Ninguém somou.
A invisibilidade tem, também aqui, endereço e idade. Os boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde em 2002 já registravam que, ano após ano, a taxa de mortes por suicídio entre indígenas era de quase três vezes a observada entre brancos, concentrada em adolescentes de dez a dezenove anos, e que entre os homens o risco cresce com a idade até atingir o ponto mais alto depois dos setenta. São, com exatidão, as populações que o formulário não alcança, o adolescente da aldeia sem sinal de telefone e o velho que nunca falaria de si a um estranho. E existe uma camada abaixo dessa, que é a invisibilidade dentro da própria estatística. Uma parte das mortes por suicídio jamais entra na conta, porque é registrada sob a rubrica dos eventos de intenção indeterminada, uma categoria que existe justamente para abrigar o que ninguém quis ou soube nomear. A lata que o faxineiro atirou no mato tem hoje um nome burocrático, é um campo de declaração de óbito mal preenchido. Há latas que nem chegam a virar urna, viram um código, equivocado, inclusive.
Tudo isso acontece num clima que não ajuda. Byung-Chul Han sustenta, em A Sociedade do Cansaço, que o sujeito do nosso tempo já não é oprimido por uma proibição vinda de fora, ele se explora a si mesmo em nome do desempenho, e adoece de excesso, de positividade, de uma exigência de render que nunca desliga. Somem-se a isso as guerras, já mencionadas, que chegam ao bolso como conteúdo, o debate público convertido em arena e a hostilidade transformada em linguagem corrente, e o resultado é a casa da tia ampliada ao tamanho do planeta, um lugar que cobra humilhação como preço de permanecer e submissão como condição para aceitação. Diante de uma casa assim, aquele abrigo à beira do açude volta a parecer, aos olhos de quem foi expulso, uma escolha razoável, e é exatamente essa aparência de razoabilidade que o sistema precisa aprender a reconhecer como sintoma, porque não é um peculiaridade exclusiva de 1945, é atual, apesar da nossa melhor conectividade.
A série que abriga este texto nasceu para pensar tecnologia, e é preciso dizer com franqueza o que a tecnologia muda nesse quadro. Sistemas preditivos, triagens automatizadas e formulários de risco só enxergam quem já produziu dado, e os algoritmos que prometem detectar sofrimento nas redes sociais só leem quem publica. Populações pouco digitalizadas, idosos sem smartphone, mulheres oprimidas em relacionamentos tóxicos, comunidades ribeirinhas e indígenas fora de qualquer conectividade, permanecem invisíveis para o modelo por simples ausência de amostra. Essa é a forma mais silenciosa de viés, porque não distorce um resultado, apaga uma população inteira antes de o cálculo começar. O que não é medido não é priorizado, e o que não é priorizado deixa de ser medido, num circuito que se fecha sozinho e que nenhum painel de gestão denuncia, já que painéis exibem o que existe nos bancos de dados, nunca o que ficou de fora deles.
Seria injusto, porém, parar aí. A mesma tecnologia que ignora o não digitalizado é também capaz de fazer o que faltou a Setsuko, ligar a tia, o médico e o fazendeiro. No filme, cada um desses contatos foi, isoladamente, irrelevante, e a soma deles era uma sentença de morte que ninguém leu porque estava escrita em três lugares diferentes. Integração de bases, cruzamento de registros, alerta de reincidência, georreferenciamento de medidas protetivas, o prontuário que avisa ao médico que aquele paciente já esteve ali três vezes em dois meses, tudo isso é, em essência, uma máquina de somar interações que humanos dispersos em repartições não conseguem somar.
O risco, então, não mora na ferramenta, mas em confundir triagem com atenção. Um sistema que ordena a fila com perfeição continua sendo o médico do filme, apenas mais rápido e em escala. A empatia que se espera de quem julga, de quem atende em sentido amplo, não é virtude decorativa, é capacidade cognitiva de operar sobre o que não está nos autos, e essa competência nenhum modelo exerce, porque modelos trabalham com o registrado, e a vulnerabilidade se manifesta primeiro exatamente naquilo que ninguém registrou.
Quando um caso chega ao Judiciário, vários sistemas já falharam antes, a família, a escola, a saúde, a assistência. Somos a última porta do corredor, e quem trabalha na última porta não pode atender como quem despacha. Nesse aspecto, as escolas judiciais desempenham papel essencial para exercitar o reforço de que magistrados e servidores públicos, gente em geral, existem para se aprofundar no problema das pessoas, para perguntar e se interessar pelo que o formulário não mostrou, para compreender que decisão correta e decisão suficiente não são a mesma coisa. Técnica se aprende em manual. Atenção, no sentido que Weil dava à palavra, se aprende vendo. Esse é o principal desafio externo e maior reflexão que o filme nos inspira.
Mas também é preciso dizer o que a literatura costuma, paradoxalmente, evitar. Enquanto o serviço público em sentido amplo fica com a missão de ser proativo e enxergar além da inércia, como o Judiciário deve procurar invisíveis nos balcões, muitas vezes não se olha para os próprios corredores.
No caso do Poder Judiciário, existe desde 2015 uma resolução do Conselho Nacional de Justiça, a de número 207, instituindo uma política de atenção integral à saúde de magistrados e servidores, e existe, convivendo com ela, uma cultura de metas que trata o cansaço como falha de organização e o silêncio como sinal de eficiência. O colega que entrega tudo no prazo, não falta a nenhuma sessão e há semanas não conversa com ninguém sobre coisa alguma é a figura encostada na coluna, e a estação, nesse caso, é a sala ao lado. Uma instituição que ensina a enxergar o jurisdicionado invisível também precisa ensinar, com a mesma seriedade, a enxergar quem assina as sentenças, quem produz minutas, quem executa a sua fração da tarefa, quem acolhe as pessoas. Talvez seja essa a função mais séria de um filme como este, dentro de uma escola judicial, treinar o olhar para a coluna, esteja ela numa estação de Kobe, num balcão de fórum, em uma serventia qualquer ou no gabinete ao lado.
O faxineiro volta ao pensamento no fim e, insisto, ele não é vilão. Ele não odeia aquele menino, não deseja o seu mal, sequer o distingue dos outros corpos que a fome foi deixando pela estação. Ele executa a rotina, e a indiferença institucional quase nunca tem outra cara além de uma rotina bem executada, não é crueldade em sentido estrito. Na última cena, os dois irmãos, já espíritos, sentam num banco, numa colina e contemplam a Kobe do presente, reconstruída, verticalizada, cintilando de luz elétrica. A cidade próspera veio, e não os guarda. Entre eles repousa a lata de balas Sakuma, o menor arquivo possível, um recipiente de doces que virou urna porque não havia outro. Toda instituição produz as suas latas, registros mínimos de vidas que passaram por ela sem serem vistas, e toda instituição, todos os dias, decide o que varre sem olhar.
Volte, por fim, à estação de Sannomiya, mas do outro lado da cena. Você não é o menino encostado na coluna. Você é a multidão. Passou por ele hoje, no corredor do fórum, na fila do posto de saúde, na conversa que há semanas ninguém retoma, e o filme não lhe concede a desculpa de não ter visto, porque a sua tese é justamente que todos veem e ninguém para. A diferença entre uma multidão e uma comunidade cabe no segundo que vem depois do olhar.
O filme termina sem dizer o que fazer diante disso, e por algum tempo pensei que este texto devia terminar do mesmo jeito, devolvendo o olhar da menina e esperando que ninguém atravessasse a estação como antes. Essa reflexão é poderosa, claro, e penso que ficará com todos que chegaram até aqui. Mas o mês é sugestivo e, nesse aspecto, um texto que diagnostica a inércia e encerra em reflexão se converte no médico do consultório, correto e ausente. Em 1945 não havia para quem ligar, e uma lata de balas foi o único arquivo que restou. Hoje existem números e sites, e este texto termina com eles porque o filme não podia.
Centro de Valorização da Vida, 188 ou cvv.com.br. Gratuito, todos os dias, a qualquer hora.
Ministério da Saúde - Orientações e centros de apoio
Setembro Amarelo - Prevenção ao Suicídio - Brasil
* Contact With Mental Health and Primary Care Providers Before Suicide: A Review of the Evidence", American Journal of Psychiatry, 2002, vol. 159, n. 6, p. 909–916 (DOI 10.1176/appi.ajp.159.6.909; PMID 12042175) - https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5072576/ acessado em 08/09/2026.
Texto: Juiz e Vice-diretor da Emeron Cristiano Gomes Mazzini