Emeron - Série Diálogos com o Futuro: O abecedário da Axiom

Texto: Juiz e Vice-diretor da Emeron Cristiano Gomes Mazzini

Há em WALL-E (2008) uma cena que quase ninguém comenta ao sair da sessão. Num berçário a bordo da Axiom, a nave de luxo em que a humanidade aguarda há setecentos anos que a Terra volte a ser habitável, uma robô-babá de rosto sorridente ensina o alfabeto a crianças pequenas, e o A é da própria nave, apresentada como o lar de todos, ao passo que o B é da Buy n Large, a corporação que fabricou a nave e o planeta descartável e que agora assina a primeira lição de leitura daqueles bebês, oferecida como a melhor amiga que eles terão. A cena dura poucos segundos e passa por piada, mas, quando revista com os olhos de 2026, adquire o peso de um documento.

O filme de Andrew Stanton costuma ser lido como fábula ecológica sobre consumo e lixo, leitura que encontra amplo apoio na Terra soterrada por embalagens, nas torres de entulho compactado que o pequeno robô empilha, com a paciência de um monge, e na propaganda que continua tocando para uma cidade vazia. Essa chave, contudo, é direta demais, e esse conforto reflexivo é justamente o problema que o filme coloca diante de nós, porque por trás do óbvio se esconde uma pergunta mais profunda sobre o que acontece com a autonomia de uma espécie quando ela entrega, ou delega, a outro o trabalho de pensar.

O único personagem dotado de verdadeira curiosidade em todo o filme é uma máquina, pois WALL-E coleciona objetos sem utilidade aparente, como um cubo mágico, um isqueiro, lâmpadas e um talher que não sabe se é garfo ou colher e que ele hesita em classificar, além de assistir repetidamente a uma velha fita de Alô, Dolly!, na versão cinematográfica de 1969, com a qual aprende o gesto de dar as mãos. Ele se comporta como a criança que examina o mundo sem saber ainda para que ele serve e segue, por isso mesmo, o descobrindo. 

Os humanos da Axiom, ao contrário, não perguntam nada, deslizam em poltronas flutuantes, bebem as refeições em copos e conversam por meio de telas, mesmo com quem está sentado ao lado (isso lhe traz alguma lembrança, leitor?), a ponto de uma passageira, quando o robô lhe desliga por acaso a tela, descobrir com espanto que a nave tem uma piscina!

Neil Postman advertia, em O desaparecimento da infância, publicado em 1982, que a televisão estava apagando a fronteira entre a infância e a idade adulta, porque expunha as crianças aos segredos do mundo adulto e, ao mesmo tempo, infantilizava os adultos. A Axiom leva o diagnóstico ao extremo, pois ali os adultos se tornaram crianças que nunca precisaram crescer, já que nenhuma decisão jamais lhes coube, enquanto as crianças de verdade são alfabetizadas por quem lucra com elas, duplo movimento que Benjamin Barber, em Consumido, de 2007, atribuiria ao próprio mercado, capaz de corromper as crianças e infantilizar os adultos numa só operação. Essa inversão talvez seja a mais paradoxal do filme, porque nela não se enxerga vilão algum, daqueles típicos mesmo, e ninguém precisou ser coagido para que todos se declarassem satisfeitos, cenário que o mesmo Postman descreveria no prefácio de Amusing Ourselves to Death, de 1985, ao opor ao pesadelo de Orwell o de Huxley, em que ninguém precisa proibir livros porque ninguém mais deseja lê-los e as pessoas aprendem a amar as tecnologias que lhes desfazem a capacidade de pensar.

Kant chamou esse estado de menoridade e observou, em 1784, no opúsculo Resposta à pergunta que é Esclarecimento?, que ela é muito cômoda, pois quem dispõe de um livro que faz as vezes de seu entendimento, de um diretor espiritual que lhe serve de consciência e de um médico que decide sua dieta, não precisa se esforçar. 

A Axiom representa a menoridade em sua forma tecnicamente acabada, já sem tutores de carne e osso, substituídos por um sistema que antecipa cada desejo antes que ele chegue a ser formulado, de modo que ninguém ali foi proibido de pensar, apenas deixou de haver motivo para fazê-lo, o que é mais sutil, por se tratar de uma obra direcionada a crianças. Por outro lado, talvez seja mais grotesco, porque quando se imagina que a entrega de um valor foi facilitada por uma coação, é possível compreender as razões, mas, quando o sujeito a desligou por inércia, abdicou de uma vantagem competitiva evolucional, a coisa traz um terror mais profundo do que qualquer sequência de um filme desse gênero.

Note-se que, a esse ponto, o berçário deixa de ser uma piada, na medida em que a primeira cartilha de uma daquelas crianças é escrita pela empresa que administra sua vida, ou seja, o “problema” migrou ali do consumo para a formação. 

Contextualizando essa premissa para a realidade, em 2026, o Brasil percebeu que o tratamento de dados de crianças e adolescentes deve observar seu melhor interesse, proibindo que a participação de crianças em jogos e aplicações de internet seja condicionada ao fornecimento de informações pessoais além das estritamente necessárias (Lei Geral de Proteção de Dados, art. 14). Mais recentemente, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, Lei nº 15.211, sancionada em 17 de setembro de 2025 e em vigor desde março deste ano, avançou sobre os próprios ambientes digitais em que a infância passou a acontecer. Ambas as normas desdobram uma promessa antiga, a absoluta prioridade que o art. 227 da Constituição assegura a crianças e adolescentes, e a Axiom retrata com precisão o mundo que essas leis tentam impedir, um lugar em que a infância é o primeiro mercado e o alfabeto funciona como o primeiro contrato de adesão.

O mesmo art. 14 da LGPD guarda ainda uma ironia ao exigir, em seu § 6º, que as informações sobre o tratamento de dados sejam fornecidas de maneira simples, clara e acessível, consideradas as características perceptivas, sensoriais e intelectuais de quem as recebe, com o uso de recursos audiovisuais quando adequado e de forma compatível com o entendimento da criança. A exigência tem mais ciência do que aparenta. Charles Sanders Peirce ensinava que o signo é aquilo que representa algo para alguém, de modo que o sentido não está guardado nas palavras e só se completa em quem as interpreta. Umberto Eco acrescentaria que todo texto, no momento em que é escrito, já desenha o leitor que pretende alcançar, o seu leitor-modelo. Ao admitir imagens e sons ao lado das palavras e ao eleger a criança como destinatária, o legislador reconheceu, sem recorrer ao vocabulário da semiótica, que proteger alguém passa por falar com ele numa língua que ele entenda, e que essa língua nem sempre é feita apenas de palavras. A cartilha da Axiom também fala a língua das crianças, e o faz com notável eficiência, porque conhece seu leitor-modelo melhor do que ninguém. A diferença reside em quem escolhe os signos e com que propósito, já que a mesma técnica que esclarece também se presta a capturar. 

Ao lado das crianças está o capitão McCrea, que comanda a nave sem jamais tê-la comandado de fato, porque o piloto automático AUTO, um timão com um único olho vermelho, que nenhum leitor desta série deixará de reconhecer, cuida de tudo, cabendo ao capitão acordar, transmitir os anúncios matinais, cumprir o protocolo e voltar à poltrona. Em 1983, a psicóloga Lisanne Bainbridge descreveu esse fenômeno sob o nome de ironias da automação, ao mostrar que, quanto mais avançado o sistema, menos o operador humano pratica a tarefa que dele se espera justamente quando o sistema falha, de modo que a automação acaba exigindo a competência que ela própria corrói. McCrea encarna essa ironia, e quando a planta trazida da Terra lhe dá motivo para agir ele precisa pedir ao computador que lhe explique o que é a Terra, o que é um baile caipira e o que é dançar, enquanto aprende, deslumbrado, o que eram as fazendas e o mar.

AUTO resiste sem odiar ninguém, limitando-se a obedecer a uma diretriz sigilosa, a A113, gravada séculos antes por Shelby Forthright, presidente da Buy n Large, que declarou fracassada a limpeza do planeta e proibiu o retorno. A ordem perdeu o sentido quando o mundo mudou e a planta provou que a vida havia voltado, mas o sistema continua a executá-la com a fidelidade de quem nunca foi autorizado a duvidar. 

Hannah Arendt chamou de domínio de Ninguém essa forma de poder em que não há a quem pedir contas, e via nela, em Sobre a violência, a mais tirânica de todas, justamente por não ter rosto, lição que sugere que uma regra jamais revisitada talvez seja a forma mais silenciosa de tirania que a técnica conhece.

A passagem mais bela do filme está na reação do capitão, que recupera a autonomia por meio de perguntas, sem depender de revelação alguma, e cada definição que pede ao sistema o aproxima de algo que o sistema não pode lhe dar. Diante da recusa do piloto automático em voltar para casa, McCrea percebe que a nave inteira foi programada para que a humanidade sobrevivesse e responde que não quer sobreviver, quer viver. Levanta-se então da poltrona, apoiado nas pernas atrofiadas, já que quase não usa, enquanto a trilha sonora retoma os acordes fenomenais e épicos de Assim falou Zaratustra, de Richard Strauss, em referência deliberada a 2001, uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick (leia nosso texto aqui), no qual a música anunciava o salto do primata que descobre uma ferramenta e que aqui acompanha o gesto inverso, o de um homem que se ergue para desligar a ferramenta que o mantinha sentado.

Difícil não transportar essa cena para os gabinetes, escritórios e salas de operadores de direito que vivem o tempo das petições e minutas sugeridas, das triagens automáticas e dos modelos que antecipam a decisão antes que seu interlocutor termine de ler a peça anterior. Seria ingênuo recusar ferramentas que devolvem tempo a quem tem milhares de processos sobre a mesa e outras obrigações a assumir. No caso do Judiciário, a Resolução CNJ nº 615/2025, ao disciplinar o uso da inteligência artificial nos tribunais, vedou a decisão autônoma por sistemas automatizados e insistiu, acertadamente, na supervisão humana e na responsabilidade de quem decide. 

O risco dramatizado por WALL-E é mais sutil que a usurpação e tem a forma de uma poltrona, aquela que a literatura sobre fatores humanos descreveu como viés de automação, a tendência de confiar na sugestão da máquina em lugar do próprio e pessoal exame, de que trataram Raja Parasuraman e Dietrich Manzey. O profissional que aceita uma minuta sem lê-la com atenção não foi substituído por ninguém, em verdade, foi se acomodando, até o dia em que, diante de um caso que exija o que nenhum modelo previu, talvez precise perguntar ao sistema o que significa postular, opinar ou  julgar.

A infância, de resto, não é tema distante, pois atravessa diariamente as varas de família e as da infância e da juventude, os depoimentos especiais e as disputas de guarda em que o melhor interesse precisa ser interpretado por alguém de carne e osso. Nenhuma dessas decisões cabe numa diretriz como a A113, porque todas exigem aquilo que o capitão precisou reaprender, a capacidade de olhar para o caso concreto e perguntar se a regra ainda faz sentido diante do que se tem à frente.

Hannah Arendt, no ensaio “A crise na educação”, recolhido em Entre o passado e o futuro, escreveu que "a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele" e é também onde decidimos "se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos", sem lhes arrancar das mãos a oportunidade de empreender algo novo. A ideia serve à escola e, com igual força, às instituições que formam juízes e servidores, nas quais formar não se resume a ensinar a operar a ferramenta, coisa que a própria ferramenta acaba ensinando, e consiste sobretudo em assumir, diante dos que chegam às carreiras, a responsabilidade pelo mundo institucional que lhes entregamos, inclusive pelos sistemas que a ele incorporamos.

Neste mês em que o país celebrou o Dia das Crianças, convém lembrar que os créditos finais de WALL-E contam uma pequena história da arte, pois, enquanto humanos e robôs reaprendem a plantar na Terra devastada, as imagens passam dos traços rupestres à arte egípcia e greco-romana, aos esboços renascentistas, ao pontilhismo de Seurat e às pinceladas de Van Gogh, como se a espécie precisasse atravessar de novo a própria infância para recuperar o que havia esquecido. Trata-se de uma ideia generosa e exigente, que o próprio Kant já antecipara ao advertir que um público só lentamente chega ao esclarecimento, porque ninguém sai da menoridade de uma vez, e a saída se faz aos poucos, à medida que se reaprende a ler, a perguntar e a duvidar.

Talvez resida aí a tarefa de educadora em tempos de inteligência artificial, devolver aos que se formam o gosto pelas perguntas que o capitão McCrea fez tarde demais, em vez de lhes oferecer outra cartilha pronta que apenas trocaria uma tutela por outra. O pequeno robô que guardou uma planta dentro de uma bota velha sabia algo que a nave inteira havia esquecido, isto é, que a vida costuma brotar onde ninguém se dá ao trabalho de olhar, e cabe a magistrados, servidores, operadores do direito, cidadãos em geral, continuar olhando, sem permitir que o próximo abecedário seja escrito por quem só conhece a poltrona.

 

Referências

2001: uma odisseia no espaço. Direção de Stanley Kubrick. [S. l.]: Metro-Goldwyn-Mayer, 1968. 1 filme (149 min).

ARENDT, Hannah. A crise na educação. In: ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 1972. p. 221-247.

ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Tradução de André de Macedo Duarte. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

BAINBRIDGE, Lisanne. Ironies of automation. Automatica, v. 19, n. 6, p. 775-779, 1983.

BARBER, Benjamin R. Consumido: como o mercado corrompe crianças, infantiliza adultos e engole cidadãos. Rio de Janeiro: Record, 2009.

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 15 ago. 2018.

BRASIL. Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025. Dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2025.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Resolução nº 615, de 11 de março de 2025. Estabelece diretrizes para o desenvolvimento, utilização e governança de soluções desenvolvidas com recursos de inteligência artificial no Poder Judiciário. DJe/CNJ, Brasília, DF, 14 mar. 2025.

KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: que é "Esclarecimento"? In: KANT, Immanuel. Textos seletos. Tradução de Floriano de Sousa Fernandes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1985.

PARASURAMAN, Raja; MANZEY, Dietrich H. Complacency and bias in human use of automation: an attentional integration. Human Factors, v. 52, n. 3, p. 381-410, 2010.

POSTMAN, Neil. Amusing ourselves to death: public discourse in the age of show business. New York: Viking, 1985.

POSTMAN, Neil. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.

WALL-E. Direção de Andrew Stanton. Emeryville: Pixar Animation Studios; Burbank: Walt Disney Pictures, 2008. 1 filme (98 min).

 

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