Um homem acorda num hospital vazio. Não há enfermeiras, não há médicos, não há aqueles ruídos típicos de monitoramento dos hospitais. Há silêncio, e o silêncio, naquele corredor, diz tudo. Rick Grimes, xerife do condado de King, arrasta seu corpo debilitado pelo chão, empurra uma porta e descobre que o mundo que conhecia desapareceu enquanto ele dormia.
Em cinquenta e nove dias de coma, a civilização acabou.
A partir desse momento, o que mais nos perturba não são os mortos. É a constatação de um xerife de que a da insígnia que ostenta, embora ainda brilhe no peito, não mais representa um Estado.
O que resta da autoridade, da moral, da ética, quando a ordem desaparece?
Essa é uma das principais perguntas que The Walking Dead (TWD) faz durante onze temporadas, e é a mesma que, de formas cada vez menos ficcionais, o nosso tempo insiste em nos fazer.
Neste aspecto, poucas obras contemporâneas foram tão mal compreendidas quanto esta.
À primeira vista, trata-se de uma narrativa sobre zumbis.
Quantas pessoas já não se sentiram repelidas por essa narrativa. “Ah, outra série de zumbis?!”.
Essa premissa, além de ser injusta, não arranha sequer a superfície do que TWD realmente é. Os zumbis são uma distração conveniente, o que chamam de sideshow e, realmente, não importam tanto, para além da metáfora mais óbvia da série (que abordaremos abaixo). O autor poderia ter escolhido plantas carnívoras, meteoros, cataclismas, maremotos, guerras, destruição e esvaziamento de instituições republicanas…
Aqui reside o plot twist temático: o apocalipse não é o tema central, é o experimento. Robert Kirkman construiu sua obra a partir daquela pergunta simples, mas que é devastadora: o que resta do humano quando tudo aquilo que o organiza deixa de existir?
A escolha do gênero, aliás, não foi acidental. O apocalipse zumbi funciona como um laboratório radical. Retira-se o Estado, dissolve-se o sistema jurídico, esvaziam-se as instituições e o que emerge, para além do previsível caos absoluto, é algo mais inquietante. É a necessidade inevitável de reconstruir regras, ainda que sem fundamento, sem forma, sem legitimidade. E talvez esse seja o primeiro desconforto que a série provoca.
O Direito não desaparece com o fim do mundo. Ele insiste. Deformado, mas insiste.
Voltando à palavra "zumbi", um detalhe intrigante! Ela nunca foi pronunciada na série. Essa ausência deliberada, quase filosoficamente provocadora, foi proposital. Nomear é categorizar, é criar distância, é erguer uma fronteira entre o eu e o outro. Recusa-se essa fronteira, e Kirkman faz dela o coração da obra.
Em substituição, os personagens os chamam de "caminhantes", de "mortos", de "aquelas coisas". Os zumbis não ocupam o centro moral da narrativa, como dissemos, mas são o cenário, os ruídos, as consequências. O verdadeiro conflito se dá entre os sobreviventes e, mais profundamente, dentro deles, nas decisões tomadas sem qualquer amparo institucional, expondo a fragilidade daquilo que chamamos de ética.
Os mortos não são o verdadeiro problema. Os vivos o são. Divagando um pouco, isso lembra aquele ditado popular, típico dos causos declamados por pessoas que contam ter medo de circular dentro de cemitérios, sendo repreendidos pelos outros com a resposta: “não tenho medo dos mortos, tenho medo dos vivos”.
Para quem entende TWD como algo rico filosoficamente, a frase mais importante de toda a saga não se refere a heroísmos, atos de salvamento, valentia ou descreve alguma luta épica. Ela é dita pelo protagonista, o xerife, após perceber que o grupo, em sua guerra pela sobrevivência, havia se transformado naquilo que mais temiam: "We are the walking dead", ou, em uma tradução livre, "nós somos os mortos-vivos". Não é uma referência biológica, mas a de uma morte moral. É verdade que mais tarde ele diz "We are the ones who live" (Somos nós que vivemos), mas vou me permitir reduzir sua importância a algo um pouco mais comercial, já que tratava-se de uma referência expressa a um futuro spin-off da série.
Sobre serem os verdadeiros mortos-vivos, essa é a metáfora fácil, a de que podemos nos tornar monstros sob pressão (às vezes nem tão extrema), e é apenas a primeira camada. Aqui, o mais sofisticado é mostrar que a degradação não começa com a violência, mas com a normalização das exceções.
Com a primeira vez em que se respira fundo e, de forma seletiva, pensa-se que "desta vez é diferente", ou com o primeiro "as circunstâncias justificam o que fiz". Com aquela concessão sobre ser um mal necessário.
Na primeira vez em que alguém diz que os fins justificam os meios, mesmo acreditando nisso de forma genuína, com alguma dor ou culpa, convencendo-se de que está protegendo algo maior, surge alguma degradação moral, até porque, usualmente, essa exceção criada sempre é dirigida a um antagonista, a um nêmesis.
Não quero com isso dizer que Rick Grimes é um vilão, ou quem age assim está moralmente decrépito. Todavia, não rotular o xerife, não nos proíbe de constatar que há algo ainda mais perturbador: mesmo pessoas boas aprendem, progressivamente, a tolerar em si mesmas o que jamais tolerariam nas outras.
Primeiro é o seu inimigo e daí, tudo se justifica. A ponte para avançar sobre aquele que não concorda com você é muito rápida!
Thomas Hobbes descreveu o estado de natureza como uma guerra de todos contra todos, onde a vida humana seria, sem contrato social, solitária, pobre, sórdida, brutal e curta. TWD é a dramatização mais evidente dessa hipótese já produzida pela cultura pop.
Sem tribunais, sem leis, sem garantias, os personagens são forçados a reinventar aquilo que o Direito sempre tentou domesticar: o poder. O protagonista, o herói, pouco a pouco, deixa de aplicar a lei para encarná-la, porém, sua autoridade já não é decorrente da norma, mas de sua necessidade (conveniente ou não). E, por vezes, do medo.
O que Hobbes, porém, não antecipou completamente é que o instinto humano de reconstruir a ordem é tão poderoso quanto o de destruí-la. As comunidades em The Walking Dead não se mostram como uma expressão do fracasso humano, mas como um ensaio sobre sua teimosia diante do ocaso, da recusa em aceitar que o caos seja uma condição permanente.
E é aqui que a série se aprofunda filosoficamente para além do óbvio, porque os personagens não apenas sobrevivem: eles legislam, julgam, punem, perdoam, negociam. Refazem, sem o vocabulário para nomeá-lo, o próprio contrato social, a seu modo.
Querem exemplos disso, do desespero humano por rearranjos?
A prisão, símbolo absolutamente central da narrativa em um das primeiras temporadas, carrega essa ironia com densidade sufocante. O núcleo dos principais personagens escolhe habitar um lugar concebido para punir e controlar. Os muros do encarceramento tornam-se os muros da proteção possível. O que a sociedade construiu para conter os indesejáveis, torna-se o refúgio em que se tenta reconstruir a inclusão. A estrutura da punição transforma-se em estrutura da esperança. O contido passa a ser quem está além dos muros.
No arco envolvendo o “Governador” há outra prova disso. O personagem entra e estraga tudo, mas apoiado pela premissa de que, também, reconstituiu a ordem, a seu jeito, é verdade. Em um olhar inicial, ele governa com eficiência. Há comida, há segurança, há rotina. Há também, por baixo de tudo isso, horror. O Governador não é o caos, é uma ordem, a seu modo e sem legitimidade ou legitimação. E é precisamente essa distinção, entre eficiência e legitimidade, entre poder, autoridade, e autoritarismo que define o que separa a justiça da arbitrariedade e da tirania.
Enquanto Carl Schmitt definia o soberano como aquele que decide sobre o estado de exceção, na série, o Governador decidiu que a exceção seria permanente, e é no estado de exceção que o poder autoritário respira. Com o tempo, na série e fora dela, decisões antes impensáveis tornam-se naturais. Matar deixa de ser exceção. Torturar passa a ser cálculo. Vilipendiar garantias ou abandonar tornam-se estratégias. Fazer ajustes, releituras e concessões em nome da sua própria verdade, torna-se sobrevivência. Não porque a humanidade foi perdida, mas porque foi reconfigurada com um novo conceito sobre o “próximo”, que ficou restrito ao círculo de ferro do soberano.
A série nos empurra, sem anestesia, para um terreno filosófico clássico e perigoso: existe moral a depender de um contexto pessoal, individual (ou de pequenos grupos)? O que achamos "certo" sobreviveria à todas circunstâncias? Um indivíduo pode reorganizar uma nova ordem conforme seu contexto?
Neste ponto, o que diferencia Rick e o Governador não é a ausência de violência, mas a presença de culpa. Kant diria que a moral verdadeira age por dever, por imperativo categórico, independente das consequências, e Rick falha kantianamente a todo momento, ele se torna o mestre do imperativo hipotético. Já o Governador tem por lema a ideia de que existem amigos e inimigos. Não há meio termo.
Mas Viktor Frankl, o psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração e fundou a logoterapia, nos diria algo diferente: o que define o ser humano não é sua perfeição moral, mas a busca incessante por sentido, mesmo em condições de horror absoluto. Rick não é moral no sentido kantiano. É humano no sentido de Frankl: ele busca justificativa, propósito, um horizonte que valha o custo, e é esse peso que carrega, essa recusa à apatia total que o mantém do lado certo de uma fronteira que nunca é completamente visível, porque traçada por sua própria consciência.
O paradoxo da fundação, de Hannah Arendt, que estabelece a impossibilidade de criar lei legítima sem que haja, antes, uma lei que legitime sua criação, nos faz pensar que em toda fundação há, em seu núcleo, uma violência inaugural. O que determina seu caráter não é a ausência dessa violência, é o que se constrói depois dela. Nos episódios em que nos é apresentada a “Commonwealth”, a grande comunidade das temporadas finais, funcional e quase pré-apocalíptica em sua organização, revela-se o que acontece quando essa segunda etapa falha.
Ao reconstruir a civilização, aqueles humanos reproduziram as mesmas desigualdades de antes. O cargo que você ocupava antes do apocalipse determina seu status agora. As elites voltaram ao topo. Kirkman não poderia ser mais preciso: reconstruir instituições sem reconstruir valores é apenas dar arquitetura nova aos mesmos problemas antigos.
Nas temporadas finais, há um grupo que é filosoficamente o mais perturbador de todos. Os Sussurradores vivem disfarçados entre os mortos, usando peles de zumbis como máscaras. Não são distinguíveis dos mortos. Caminham entre eles, balbuciam como eles. São a ameaça que não pode ser identificada visualmente porque adotou a aparência do “socialmente aceito”, do sideshow, do que é ruído de fundo. Em última análise, porque abdicou da individualidade para se fundir ao rebanho.
Mais do que um disfarce, o que operam é um mimetismo ontológico, já que não apenas se fantasiam, eles tentam ser o vazio, abdicando da própria essência humana para sobreviver.
Vivemos num tempo em que essa metáfora deixou de ser alegórica, a do sujeito que, para sobreviver ou exercer o poder, mimetiza a decadência ao seu redor até se tornar indistinguível dela.
Aproveitando as reflexões para tocar outro lado.
Quando qualquer imagem pode ser fabricada, quando qualquer voz pode ser clonada, quando qualquer vídeo pode ser gerado por algoritmo, o que acontece com a prova? O que resta da verdade quando a tecnologia pode produzir, em minutos, uma confissão falsa, uma testemunha inexistente, uma cena que nunca aconteceu? A verdade deixou de ser pressuposto. Passou a ser disputa e a tecnologia, nesse cenário, não cria o problema, torna-o visível e irreversivelmente ampliado. Pior, tornou-se estatística, na medida em que o algoritmo não busca o que é fato, mas o que é provável, o que reverbera ou o que engaja.
Os Sussurradores não são apenas um grupo hostil numa série de ficção. São a representação mais precisa do colapso epistemológico em curso, a ameaça que veste a pele familiar, que caminha entre os mortos como se fosse um deles, que só se revela quando já é tarde demais para o outro.
E a resposta que a série oferece é exclusivamente humana. É a confiança construída em comunidade, a memória compartilhada, o reconhecimento que não depende de imagem mas da história. O que protege contra os Sussurradores não é um equipamento de detecção. É o laço que existe entre nós.
Diferentemente da ficção, nosso mundo não colapsou. Mas talvez tenha sofrido algo igualmente perturbador, um deslocamento silencioso de seus fundamentos.
Vivemos um tempo em que soberanias são relativizadas por interpretações convenientes, em que o direito internacional é invocado seletivamente, em que decisões políticas operam com frequência crescente na zona cinzenta da legalidade. Em que a exceção, tal como na série, deixa de ser exceção e torna-se método.
Direitos são relativizados, garantias são flexibilizadas, e a urgência passa a justificar o impensável. O que antes seria intolerável torna-se compreensível. E, pouco depois, aceitável.
A pergunta então deixa de ser jurídica e passa a ser filosófica: a exceção ainda é exceção quando se torna recorrente? Ou estamos, silenciosamente, reconstruindo uma nova normalidade?
Uma ordem que não é a ausência de leis, mas a imposição de uma sem significado, esvaziada de ética e usada apenas como ferramenta de gestão, tornando o mundo um lugar menos garantista, mais pragmático e, por isso mesmo, muito mais perigoso.
Na série escrita, The Walking Dead termina de forma deliberadamente otimista. Após dezesseis anos de publicação, o fim chega com um salto temporal para décadas no futuro: Carl é adulto, há uma estátua de Rick no centro de uma praça reconstruída, os zumbis são raridade, crianças crescem sem saber o que foi o apocalipse. Uma estátua no centro da praça. Um monumento. Uma escola de memória.
O que essa imagem final diz não é que o apocalipse acabou. É que ele foi lembrado. Que o custo foi gravado em pedra para que não precisasse ser pago novamente e que a civilização reconstruída não fingiu que o colapso não aconteceu, mas o inscreveu no centro da vida pública como advertência e como homenagem.
Se o Direito depende exclusivamente das instituições, ele é frágil. Se depende apenas da moral individual, ele é volátil. A série sugere algo além: o Direito como construção contínua, provisória e profundamente humana. Não há respostas definitivas, não há modelos universais. Há apenas escolhas, e as consequências que insistimos em carregar.
O Rick Grimes que existia antes do apocalipse jamais poderia se preparar para tudo o que tudo viveria, nem aprender tudo o que precisaria aprender. Ele aprendeu destruindo coisas preciosas, tomando decisões que o partiram por dentro, errando de formas que não tinha volta.
As leis e os sistemas de justiça, as instituições democráticas, devem funcionar de forma a dar estabilidade suficiente para que não precisemos atuar de forma orgânica e arbitrária, vilipendiando valores individuais e sociais.
O Poder Judiciário, e as escolas judiciais e de magistratura, existem para que magistrados e serventuários da justiça não precisem esperar pelo apocalipse. Para que, diante da tentação da exceção ou da mimetização do erro, quando o corredor estiver vazio e o silêncio disser tudo, haja alguém que já saiba o que fazer. Não porque sobreviveu ao caos, mas porque cultivou a memória do que o caos destrói, aquele laço, lembra?
Quando o mundo acaba, o Direito não desaparece. Ele recomeça, exatamente de onde falhamos.
E talvez com essa constatação venha o maior acerto de The Walking Dead, não na escolha dos zumbis, mas na lupa que nos coloca à frente durante a série. Essa lupa não nos mostra um mundo diferente, ela exagera o nosso para nos chocar, claro, e também para nos alertar.
Texto: Juiz e Vice-diretor da Emeron Cristiano Gomes Mazzini