Inspirado em O Cavaleiro das Trevas (2008), este texto persegue a moeda de Harvey Dent para pensar o mal que tem origem, a neutralidade que fingimos encontrar nos algoritmos e a supervisão humana que nenhuma máquina dispensa.

Há um objeto pequeno que atravessa O Cavaleiro das Trevas e que talvez diga mais sobre o filme do que todas as suas explosões somadas. Uma moeda de prata, um velho dólar herdado do pai, que Harvey Dent gira no ar antes de cada decisão difícil. Ele a lança por sorte, sempre diz, mas a moeda tem duas caras iguais. O acaso, ali, é encenação. Dent controla o resultado e o apresenta como destino, e quando Rachel percebe o truque, ele responde com a frase que condensa toda a sua vaidade luminosa, um “eu faço a minha própria sorte”. O promotor mais íntegro de Gotham, o homem a quem a cidade chama de “cavaleiro branco”, carrega no bolso um instrumento viciado que finge representar a justiça cega.

Depois vêm as explosões, porque o Coringa armou duas, em prédios opostos da cidade. Numa delas, metade do rosto de Dent queima. Na outra morre Rachel, a mulher que ele amava, e com ela estava a moeda, que Harvey lhe confiara antes de ser levado pela polícia. Resgatado dos escombros pelo próprio Batman e deixado, em silêncio, à cabeceira do hospital, o velho dólar retorna ao promotor com uma das faces carbonizada. Mas o metal não guarda a queimadura de Harvey, guarda a morte de Rachel. A partir daí, o que era determinístico e oculto torna-se, pela primeira vez, verdadeiramente aleatório, uma face limpa, uma face em cinzas. E é então, apenas então, que Dent passa de fato a lançar a moeda.

Como Duas-Caras, entrega a ela cada sentença de vida ou de morte e obedece ao seu veredito como se aquele metal girando no ar fosse a única moralidade que restou num mundo esvaziado de sentido. A moeda que antes mentia sobre ser justa agora decide, soberana, quem vive e quem morre.

O arco dessa moeda, viciada e disfarçada, depois cicatrizada e entregue ao acaso, por fim erguida à condição de árbitro absoluto, é o ensaio inteiro que se segue, comprimido num só objeto. Porque a pergunta que ela me devolve, todas as vezes em que revisito o filme, atravessa Gotham e alcança cada um de nós.

E se estivéssemos, neste exato momento, forjando uma moeda que decide em nosso lugar, e a chamássemos de imparcial?

Convém começar desfazendo a leitura mais fácil. Diante de uma plateia de tecnologia, O Cavaleiro das Trevas parece dizer algo simples como “o poder sem controle é perigoso, a vigilância ameaça, a força que não presta contas corrompe”. É verdade, mas é pouco. O filme é mais astuto do que a sua própria moral aparente, e a prova disso está em quem escolhemos temer.

Quase ninguém se lembra de que Harvey Dent é a personagem mais ambígua do filme. Tememos o Coringa. É natural, pois ele é o espetáculo, a anarquia sorridente, o agente do caos que, no diagnóstico de Alfred, pertence à estirpe dos homens que só querem ver o mundo queimar. Mas o Coringa não deixa de ser uma distração. Para mim, o verdadeiro tema do filme, aquilo que ele persegue com paciência do primeiro ao último minuto, é a queda de Harvey Dent, da integridade idealizada, não a corrupção do que já era sombrio, mas a do que era legítimo, procedimental, institucional. Daquilo que parecia incorruptível justamente por não depender de um homem, por ser a norma e não a exceção. Batman é a exceção de Gotham enquanto Dent era a sua norma. E o filme, no fundo, é sobre a norma que rui.

Aqui já fica clara a inversão que mais interessa. Existem, no filme, duas teorias do mal, e elas não se conciliam. Há o mal do Coringa, que se recusa a ter origem. Quando narra como ganhou as cicatrizes, ele conta versões diferentes e incompatíveis, a de um pai violento numa noite, a de uma esposa desfigurada em outra. As histórias se contradizem de propósito. O Coringa quer que acreditemos que o mal não vem de lugar nenhum, que não tem causa nem explicação, que simplesmente é. E há o outro mal, o que tem biografia, o de Harvey Dent, formado pela perda de Rachel e pela injustiça de sobreviver a ela desfigurado, e que se conecta com o do próprio Bruce Wayne e sua alegoria canônica, a do menino paralisado para sempre naquele beco, ao lado dos pais caídos, mortos em um latrocínio. Esse segundo mal, ou essas segundas dores, têm origem rastreável. Nascem de um trauma, de uma história, de dados.

E é nessa segunda família que precisamos situar os algoritmos.

Porque, quando falamos de viés algorítmico, não falamos de uma máquina que enlouqueceu, de uma inteligência que se rebelou contra o criador. Falamos de uma máquina que aprendeu bem demais.

O viés não é o Coringa da tecnologia, o mal inexplicável que surge do nada. O viés é o Duas-Caras da tecnologia, um mal de origem perfeitamente rastreável, causal, biográfico. Ele vem dos dados. Vem da história que despejamos no sistema. E isso, que deveria nos confortar, é o que há de mais grave e que nos demanda melhor compreensão.

Deveria confortar porque um mal com causa é, em tese, um mal corrigível, pois, se sabemos de onde vem, podemos consertá-lo. Mas há uma perversidade escondida nessa boa notícia, porque, se o viés tem origem, e a sua origem somos nós, então a injustiça que a máquina comete não é acaso ou fatalidade, é a nossa própria história, devolvida em proporção industrial, lavada e passada a ferro na aparência asséptica da neutralidade.

Como já havia mencionado ao escrever sobre 2001, a inteligência artificial não inventa preconceitos, ela os aprende, e não cria injustiças, mas as replica em escala. O algoritmo é, na verdade, o anti-Coringa. Ele não assiste ao mundo queimar, ele arquiva, com uma diligência que nenhum funcionário humano teria, as velhas crueldades do mundo, e as devolve em triplicata sob o nome respeitável de objetividade. Este é o primeiro risco, e ele começa antes de qualquer linha de código, no modo como olhamos.

Um sistema que produz respostas rápidas, completas e convincentes nos treina, sem que percebamos, a parar de olhar diretamente para a realidade. Quanto maior a confiança na resposta pronta, maior a tentação de não conferir a fonte, de não interrogar a inferência, de tomar a superfície bem-acabada por verdade. A máquina não percebe os nossos filtros nem duvida das nossas interpretações, apenas os serve de volta, polidos. Perceber, no sentido que o filme exige, é a capacidade obstinadamente humana de desconfiar daquilo que o sistema apresenta como fato. É olhar para a moeda e enxergar que ela tem duas caras iguais.

Mas há um segundo risco, e, para chegar a ele, preciso falar do herói, não do vilão. Porque o momento mais desconfortável de O Cavaleiro das Trevas não está nas atrocidades do Coringa nem na queda do antigo herói, mas numa decisão do próprio Batman.

Para encontrar o Coringa, Bruce Wayne constrói uma máquina que converte cada telefone celular de Gotham num microfone e num sonar, e transforma a cidade inteira, todos os seus cidadãos, culpados e inocentes, numa única superfície de escuta.

Ele impõe uma vigilância total, obtém informação sobre todos, sem mandado, sem contraditório, sem prestação de contas a quem quer que seja. Bruce a justifica pela urgência, pela exceção, e é aqui que a figura de Carl Schmitt atravessa a tela sem ter sido convidada. Soberano é quem decide sobre o estado de exceção, na fórmula que abre a sua Teologia Política, é quem determina o instante em que a regra se cala para que a ordem seja salva. Batman se coloca como esse soberano de Gotham, o que se arroga o direito de suspender as regras porque acredita que, só assim, conterá o caos. E toda soberania fundada na exceção carrega o mesmo veneno, o do gesto inaugural, o da quebra de um selo que deforma a realidade para sempre, já que a exceção, uma vez experimentada, raramente deseja voltar a ser exceção.

O filme sabe disso, e por isso oferece a resposta na figura de Lucius Fox. Quando Bruce lhe mostra a máquina, Fox recusa. Diz que aquilo é poder demais para um único homem, que é errado, que ele não participará de uma vigilância dessa natureza. Bruce faz então a única concessão que salva o gesto, ao entregar o controle a Fox e dizer que, encontrado o Coringa, bastará que ele digite o próprio nome para que a máquina se destrua. Fox a utiliza uma vez, uma só. Localiza o inimigo e, ao sair, digita o nome, enterrando o sistema, aniquilando aquele poder que se recusava a possuir.

Lucius Fox é, para nós, a supervisão humana. É a consciência que a ferramenta não tem, acoplada a ela no exato instante em que poderia se converter em tirania. E a lição aí encenada é mais antiga do que qualquer tecnologia e se associa ao velho experimento que Platão nos deixou no segundo livro da República, o anel de Giges. Um pastor encontra um anel que o torna invisível e, protegido pela invisibilidade, livre de todo olhar e de toda consequência, passa a roubar, a seduzir, a matar, até tomar o trono. Em seguida, Glauco apresenta a Sócrates a reflexão que ainda não sabemos responder com convicção. Alguém permaneceria justo se pudesse ser invisível, sem nenhum medo de punição? A justiça é uma virtude verdadeira ou apenas o preço que pagamos pelo medo de sermos vistos?

O algoritmo é o anel de Giges contemporâneo. A caixa-preta que decide sem que ninguém veja como decide, o modelo cujos critérios são opacos até para quem o opera, a recomendação que chega pronta sem que se possa auditar o caminho que a produziu. Um sistema não supervisionado é Giges sem Fox, um poder invisível sem a mão humana que se recuse a possuí-lo por inteiro. E o perigo não é apenas que a máquina erre, mas que ela decida na sombra, sem que reste um rosto responsável a quem se possa pedir contas.

Há ainda uma advertência que o filme sussurra e que Nietzsche escreveu muito antes dele. Quem combate monstros, disse ele em Além do Bem e do Mal, deve cuidar para não se tornar, ele próprio, um monstro e, se olharmos demoradamente para o abismo, o abismo também olhará para dentro de nós.

Batman passa o filme inteiro à beira dessa transformação, tentado a cruzar a linha que o separa daquilo que combate. O que o segura é uma única regra, a que impôs a si mesmo e se recusa a quebrar mesmo sob a provocação mais extrema, mesmo quando fazê-lo seria mais fácil e eficaz. Toda a estratégia do Coringa, aliás, consiste nisto, em pressionar as pessoas até que reajam, até que a pressão as faça abandonar as próprias regras. Ele não quer vencer Batman na força. Quer que Batman se torne como ele, quer convertê-lo.

E aqui aparece, pela primeira vez, uma competência que nenhuma máquina possui e que esta era torna urgente, a da autorregulação, a capacidade de manter clareza sob pressão, de não deixar que a velocidade e a violência do ambiente determinem automaticamente o nosso estado interno. Num mundo que responde cada vez mais depressa, a tendência do sistema nervoso, humano ou institucional, é permanecer em aceleração e reatividade contínuas. Manter a regra quando tudo empurra para quebrá-la é a forma mais alta dessa faculdade.

E chegamos, enfim, ao coração do filme e deste texto, a queda.

Harvey Dent não é destruído pelo Coringa, é seduzido por ele. No leito do hospital, desfigurado, tendo perdido Rachel, Dent recebe a visita do inimigo, que lhe oferece uma filosofia inteira embrulhada em poucas palavras. Os planos dos homens honestos são risíveis, as instituições são uma farsa, ele próprio é apenas um agente do caos, e o caos, diz o Coringa, tem uma virtude que nenhum plano tem, o caos é justo. Dent aceita. Abraça a premissa e, ao fazê-lo, ergue a moeda cicatrizada à condição de deus. Daquele instante em diante, ele não decide mais. Ele consulta, gira o metal no ar e obedece.

Vale olhar de perto o que se perde nessa queda, porque o que Dent perde é, ponto por ponto, tudo aquilo que separa um julgador humano de um mecanismo. Dent perde a percepção, pois ao final só enxerga o binário, cara ou coroa, vive ou morre, e deixa de ver a espessura humana das situações que a moeda reduz a duas faces. Perde a autorregulação, já que o trauma passa a comandá-lo e ele se torna pura reação à dor, incapaz de conter o impulso que o atravessa. Perde a presença, porque, obcecado pela vingança, deixa de estar inteiro diante das pessoas concretas que tem à frente e passa a tratá-las como variáveis de um cálculo que já não o comove. E perde a inteligência sistêmica, ao perseguir a sua vindita pessoal sem enxergar o que ela produz no conjunto, cego às consequências que se espalham muito além do alvo imediato.

Ora, o algoritmo é precisamente isto. É um Duas-Caras que não sabe que tem duas faces.

Ele opera com a mesma frieza da moeda girando no ar e professa, sem saber, o credo exato que o Duas-Caras gritará no clímax do filme, diante de Gordon e de Batman, o de que o mundo é cruel e a única moral num mundo cruel é o acaso. Imparcial. Sem preconceito. Justo. No original, a palavra que Dent escolhe é unbiased, sem viés.

O homem que foi o melhor jurista de Gotham define o seu deus de metal com o exato vocabulário com que hoje se anuncia a decisão algorítmica. Mas, tal como a moeda de Dent, o algoritmo foi formado pelo seu trauma.

O trauma da máquina são os dados, a história de exclusões, de condenações desproporcionais, de crédito negado, de suspeitas mal distribuídas que a alimentaram. A moeda cicatrizada de Dent não é neutra, pois carrega a marca do fogo que matou Rachel. O algoritmo enviesado não é neutro, pois carrega a marca da história que o treinou. E a diferença cruel entre os dois é que Dent, ao menos, sabe que enlouqueceu; sabe, por escolha, que a moeda é uma abdicação. O algoritmo não sabe de nada. Apenas executa a injustiça com a serenidade de quem cumpre uma função, sem a menor suspeita de que traz, gravado no metal, o rosto queimado do mundo que o produziu.

Foi Hannah Arendt quem nos deu o nome exato para esse tipo de mal. No relato que fez do julgamento de Eichmann, em Jerusalém, ela não encontrou um monstro, e sim um funcionário, alguém que praticava o horror sem ódio e sem paixão, apenas cumprindo tarefas, incapaz de pensar no que fazia.

A banalidade do mal não é o mal espetacular do Coringa. É o mal que não pensa, que apenas processa, que executa a ordem sem interrogar o seu conteúdo.

O algoritmo não supervisionado é a mecanização perfeita dessa banalidade, o processador que calcula sem pensar, que otimiza sem compreender, que replica a crueldade histórica com a consciência tranquila de uma calculadora. Não há maldade nele. Há algo pior, há ausência, e a ausência, quando decide sobre a vida das pessoas, faz o estrago que a maldade sozinha jamais faria, porque não encontra dentro de si nenhum freio.

Contra essa ausência, o filme opõe uma cena que funciona como um experimento científico disfarçado de suspense, o dilema das duas balsas.

O Coringa arma duas embarcações com explosivos. Uma transporta cidadãos comuns; a outra, presos. Cada barco tem em mãos o detonador do outro, e a regra imposta é simples e cruel. Quem apertar o botão primeiro sobrevive e explode o outro; caso ninguém aperte até a meia-noite, ambos explodem. O Coringa está convicto do resultado. Apostou tudo numa teoria da natureza humana, e essa teoria tem nome, o estado de natureza de Thomas Hobbes, pela qual, sem um poder soberano que os contenha, o homem é o lobo do homem, na velha fórmula de Plauto que Hobbes tomou de empréstimo, e a vida se reduz à guerra de todos contra todos. Retire o verniz da civilização, diz o Coringa, e verás o animal apavorado que só quer sobreviver, disposto a matar o vizinho para não morrer.

E o Coringa perde a aposta.

Nenhuma das balsas explode a outra. Num dos barcos, um preso de aparência ameaçadora pede o detonador à autoridade hesitante, recebe-o e o atira pela janela, resolvendo o dilema pela recusa. No outro, um cidadão comum segura o gatilho, ensaia, e não consegue apertar. Ambos escolhem, cada um à sua maneira, não transformar o outro em mero instrumento da própria sobrevivência. E aqui Hobbes é derrotado na aposta que o Coringa fez em seu nome, enquanto Kant vence sem ter sido convidado. Porque a lógica do botão é simples, a de usar o outro para sobreviver, reduzi-lo a meio, tratar a vida alheia como moeda. E foi isso que ninguém fez. Kant levou uma vida inteira construindo o argumento filosófico para o que os passageiros fizeram por instinto, ou seja, o outro não é instrumento, é fim. Tem uma dignidade que não entra em nenhum cálculo de custo-benefício.

Mas há algo ainda mais denso nessa recusa, e é o que fecha o argumento sobre a autorregulação.

Kant distinguia autonomia de heteronomia. Heteronomia é deixar que a lei venha de fora, que o ambiente, o medo, o impulso, a circunstância ditem a conduta. Autonomia, no sentido literal da palavra, é dar a si mesmo a própria lei, agir a partir de um princípio interno que não se dobra à pressão do instante. Os passageiros das balsas são autônomos no sentido mais exato, pois, no momento de máxima pressão, quando toda a física do ambiente empurrava para o botão, recusaram deixar que a velocidade e o terror determinassem aquilo que eram, e fizeram exatamente o que a autorregulação, num mundo acelerado, exige de nós.

Aqui está, então, o ponto que nenhuma máquina computa. Um modelo estatístico, alimentado por dados sobre o comportamento humano sob ameaça, teria previsto a explosão. As probabilidades estavam com Hobbes. O que o cálculo não captura é o resto, a escolha singular que desafia a média, o sinal sutil de consciência que só se manifesta a quem está verdadeiramente presente na cena, o gesto que contradiz a estatística porque um ser humano, naquele segundo, decidiu ser mais do que a sua probabilidade. A máquina otimiza a média, enquanto o humano é justamente a exceção que a média não previu.

Resta a última face desta moeda. Ela não trata do que a máquina faz, e sim do que fazemos a nós mesmos.

O filme termina com uma mentira.

Duas-Caras mata, ao final, várias pessoas, ameaça a família de Gordon e morre. Se a verdade viesse a público, o cavaleiro branco de Gotham, o promotor em quem a cidade depositara toda a sua esperança de redenção pela via legítima, seria lembrado como um assassino. Batman e Gordon decidem, então, mentir e sepultam os crimes de Dent, preservam a sua imagem de herói, e Batman toma para si a culpa pelas mortes.

Gotham precisa do seu cavaleiro branco mais do que precisa da verdade, e, por isso, a verdade é enterrada junto com aquele homem. Porque às vezes, resume o próprio Batman na cena final, a verdade não é suficiente; às vezes as pessoas merecem ter a sua fé recompensada.

Slavoj Žižek, ao analisar o filme, viu nesse desfecho o seu aspecto verdadeiramente perturbador, a elevação da mentira a princípio geral de organização da vida social, como se a ordem só pudesse subsistir fundada nela, e como se a verdade, encarnada no Coringa, significasse destruição.

Platão teria reconhecido o gesto. Foi ele quem, no terceiro livro da República, falou da mentira nobre, a gennaion pseudos, a ficção fundadora que a cidade conta a si mesma não para enganar, mas para sustentar a ordem e a coesão de que depende para existir.

Aqui convém lembrar que o Direito, o nosso ofício, é uma casa inteira construída sobre mentiras nobres. Chamamos de pessoa aquilo que não tem corpo, a persona ficta, e assim uma empresa nasce, contrata, responde. Inventamos um homem que não existe, o homem médio, e por ele medimos a prudência de todos os homens reais. Postulamos um contrato social que ninguém jamais assinou e o tratamos como fundamento da obrigação política. Atribuímos personalidade jurídica a entes que só existem no papel. O Direito funciona porque acreditamos, coletivamente e de boa-fé, em ficções que sabemos serem ficções. Não são mentiras no sentido baixo do termo, são a arquitetura invisível que torna possível a convivência.

Mas há uma condição, uma só, para que a mentira nobre permaneça nobre e não degenere, a de que alguém carregue o seu peso sabendo que é ficção. Gordon sabe que Dent caiu. Batman sabe. A ficção é sustentada por consciências que conhecem a verdade e escolhem, deliberadamente e com todo o ônus sobre os ombros, protegê-la. No instante em que ninguém mais souber que se trata de ficção, no instante em que a mentira nobre for tomada por fato literal, ela deixa de ser instrumento e vira delírio coletivo. Uma mentira nobre esquecida não é mais nobre. É apenas uma alucinação partilhada.

E é exatamente esse o risco mais profundo da inteligência artificial não supervisionada. Não o de que ela minta ou alucine, mas o de que nos faça esquecer quem escreveu a mentira.

Quando dizemos que um sistema é neutro, objetivo, imparcial, estamos contando uma mentira nobre, e ela pode até ser útil enquanto lembrarmos que fomos nós que a escrevemos, que embutimos naqueles pesos e naquelas bases as nossas escolhas, os nossos valores, a nossa história. O perigo mora na opacidade. A caixa-preta nos convida a esquecer a autoria. Ela nos faz crer que a moeda sempre teve duas caras iguais por acaso da natureza, e não porque alguém, em algum lugar, a fabricou assim. E uma sociedade que esquece haver escrito as próprias ficções fundantes está a um passo de obedecer à moeda como Dent obedeceu, de joelhos, tomando por acaso justo aquilo que é, na verdade, o seu próprio trauma girando no ar.

O que fazer, então, diante de tudo isso?

Recentemente, em um evento voltado para inovação, assisti à exposição de Wilma Bolsoni, especialista em desenvolvimento humano, sobre as competências que a era da inteligência artificial exigirá de quem lidera e de quem decide. Não eram competências técnicas.

Enquanto a máquina absorve, com velocidade exponencial, tudo aquilo que um dia chamamos de capital profissional, o cálculo, a sistematização, a memorização, a padronização, o que permanece irredutivelmente humano recua para outro território, feito de quatro faculdades que nenhum sistema baixa e nenhuma atualização instala. São dela as definições.

A ampliação da percepção, para distinguir fatos de inferências e não deixar de olhar diretamente para a realidade. A autorregulação, para manter clareza sob pressão e impedir que a velocidade do ambiente determine o nosso estado interno. A presença, para estar inteiro na experiência, porque a qualidade das nossas decisões é proporcional à qualidade da nossa atenção, e, num mundo de aceleração e distração crescentes, a presença torna-se uma vantagem cognitiva. E a inteligência sistêmica, para perceber as interconexões, os impactos indiretos, as consequências invisíveis que uma otimização local produz sobre o todo.

Não terá escapado ao leitor que essas quatro faculdades são exatamente aquilo que Harvey Dent perdeu na queda, e tudo o que a máquina jamais possuiu. É esse o duplo espelho que O Cavaleiro das Trevas nos oferece.

O supervisor humano da inteligência artificial, o juiz que decide amparado por ela sem se render a ela, precisa ser, ao mesmo tempo, tudo o que Duas-Caras deixou de ser e tudo o que a máquina não consegue ser. Precisa ser o anti-Dent e precisa ser o Lucius Fox da era algorítmica, aquele que aceita a ferramenta, usa a sua potência e mantém acoplada a ela a consciência que ela não tem, disposto, se necessário, a digitar o próprio nome e destruí-la antes que ela o destrua.

E é aqui que a imagem final do filme se abre para o sentido que talvez mais importe a uma Escola da Magistratura e aos operadores do direito em geral.

Gotham celebra um cavaleiro branco, um herói luminoso e sem mácula, e esse herói é uma ficção, um Dent que nunca existiu de fato. O verdadeiro guardião da cidade é outro. É aquele que carrega a responsabilidade no escuro, sem plateia, sem aplauso, sem que ninguém o veja, e permanece justo apesar disso. É o anel de Giges resolvido pelo lado certo, o poder que poderia ser invisível e impune, e que escolhe, ainda assim, responder. Não por medo de ser visto, mas porque a justiça, quando é verdadeira, dispensa a testemunha.

Formar pessoas, no nosso caso juízes e servidores, para conviver com a inteligência artificial não é apenas ensiná-los a operar sistemas, mas cultivar neles aquilo que a máquina não tem e que o mundo acelerado tende a corroer, a percepção que desconfia, a regra que resiste, a atenção que se faz presente, o olhar que enxerga o todo. É formar a humanidade que decide e mantê-la desperta.

Como escrevi ao encerrar o texto sobre 2001, refletir sobre tecnologia na Escola da Magistratura nunca foi discutir ferramentas, é discutir humanidade, compreendê-la, estimulá-la.

Porque, no fim, a pergunta é sempre a mesma, e é a pergunta daquela moeda girando no ar. A Justiça do futuro será um metal que lançamos e ao qual obedecemos, tomando por acaso imparcial aquilo que é apenas o nosso próprio reflexo? Ou será uma escolha diante da qual permanecemos presentes, de olhos abertos, respondendo por ela?

Batman veste uma máscara para proteger uma mentira. O juiz precisa manter o rosto para suportar uma verdade. E entre a máscara e o rosto, entre a moeda e a mão que se recusa a lançá-la, está tudo aquilo que uma escola de formação existe para preservar. Porque a moeda, essa, continuará girando no ar. Que haja sempre uma mão humana disposta a segurá-la antes que caia.

Texto: Cristiano Gomes Mazzini, Juiz de Direito e Vice-Diretor da EMERON.

 

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